“Deus traz o sentimento de mãe, você pode perder seu filho, mas ele não vai embora”.

Mais que sinônimo de amor, ser mãe é um estado de espírito. O filho de Janile, que não chegou a nascer, a envolveu pelo amor materno que hoje lhe transborda aos olhos e ao coração, indo do Japão, passando pelo Brasil e chegando até a África.

Do interior de São Paulo, faz 14 anos que ela e o marido Fabiano, deixaram o país natal pelo Japão. Ele, descendente de japoneses, enquanto ela levou para a terra oriental um grande par de olhos verdes.

Operária de uma fábrica no Japão, Janile se tornou madrinha de três crianças, a quem chama de anjos, em janeiro deste ano. Foram meses buscando onde direcionar todo amor que o bebê deixou dentro dela.

“Antes mesmo de engravidar a gente já falava de fazer algum serviço social, na verdade eu nem falo assim, eu digo que ‘doação de amor’, só que aqui no Japão é muito complicado, é outra cultura, outro idioma. Existem barreiras”, conta Janile Yokobatake, de 31 anos.

Quando a notícia do bebê chegou, a maternidade aflorou e mostrou que veio para ficar no coração da madrinha. No segundo mês de gestação, numa consulta de rotina, Janile descobriu que a criança não havia se desenvolvido e que dentro dela já não existia mais vida.

“Os médicos não souberam dizer o que aconteceu. Simplesmente ele parou de se desenvolver”, recorda. Além do sofrimento emocional, veio também o físico, de procedimentos cirúrgicos. “Eu pensava que minha vida tinha acabado, mas eu não podia fazer isso. Até que disse ao meu marido: ‘eu tenho que fazer o bem, eu vou fazer’”, recorda.

O pensamento até então era: ‘um dia eu vou fazer, um dia...’ “Mas eu acho que meu filho veio para me dizer: ‘mãe, você tem que fazer agora. Não ficar só na vontade”, acredita Janile.

As redes sociais trouxeram à Janile um caminho. Meses atrás, o casal se deparou com a Fraternidade Sem Fronteiras pelo Facebook. “Foi sem querer, não sei qual amigo nosso curtiu alguma coisa, não me recordo agora, mas meu marido começou a falar para mim sobre o que era”, lembra.

Em princípio, a interação era apenas no ‘like’ das fotos até que Janile sentiu que deveria escrever. Primeiro para o filho, depois para a Fraternidade. “Escrevi uma pequena carta para ele, prometendo que papai e mamãe iam levar amor ao mundo. Ninguém vai substituir ele, mas este amor que eu tenho aqui dentro, outra criança merece também”, sente Janile.

Depois de enviar um e-mail perguntando como funcionava o apadrinhamento da ONG, a resposta veio como um alento. “E nós decidimos apadrinhar. Primeiro seriam só dois, só que tem tanto amor aqui dentro que acabaram sendo três”, conta sorrindo.

No dia em que as fotos chegaram e deram rostos a este amor vindo da África, Janile chorava de alegria. Era expediente ainda no Japão, quando o marido pediu para que ela olhasse as imagens que ele havia enviado. “Ele me ligou: ‘você não sabe o que aconteceu!!! Ele me mandou as fotos pelo WhatsApp e eu corri para o banheiro para ver. Minha perna tremia, eu chorava”, narra.

A cena não lhe sai da memória. “Estes três anjos são muito importantes para mim, porque eles chegaram na minha vida no momento em que eu mais precisei. Minha vontade é ir lá abraça-las, porque elas fazem parte da minha família”.

Pelas contas, o bebê de Janile e Fabiano nasceria nesta semana do Dia das Mães e, hoje, ser madrinha é ser mãe de três e ainda sentir o amor do filho cercando a família toda. “Eu penso assim, mãe é sinônimo de amor. Deus traz o sentimento e você pode até perder seu filho, mas o sentimento não vai embora. Eu sou mãe, me considero mais ainda depois delas, apesar de não ter meu filho comigo”.

  

Lúcia, Dorca e Célia, afilhadas de Janile.

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