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Maick Mutej: líder Ubuntu que transformou o recomeço em uma missão de acolher

Refugiado da República Democrática do Congo, ele viveu quatro anos no campo de Dzaleka, no Malawi, e hoje coordena no Burundi  projeto voltado ao acolhimento de crianças resgatadas da guerra

Por Laureane Schimidt 

Em janeiro de 2015, Maick Mutej Mukeba deixou sozinho a República Democrática do Congo (RDC). Aos 23 anos, precisou cruzar fronteiras em busca de segurança e encontrou refúgio no Malawi, onde passou os quatro anos seguintes no campo de refugiados de Dzaleka.

A experiência do deslocamento forçado marcou uma mudança profunda em sua trajetória. Longe de seu país e da família, Maick precisou reconstruir a própria vida em um lugar onde milhares de pessoas também conviviam com as incertezas de quem precisou deixar para trás sua casa, seus vínculos e seus planos.

Foi em Dzaleka que, em 2018, seu caminho encontrou o da Fraternidade Sem Fronteiras. Maick começou como voluntário e participou, ao lado de outros refugiados, da criação da Nação Ubuntu, iniciativa que nasceu dentro do campo e se transformou em um projeto voltado à educação, alimentação, desenvolvimento e geração de oportunidades para refugiados e para a comunidade local.

Da condição de refugiado a agente de transformação

O Nação Ubuntu foi o início de uma trajetória que levaria Maick novamente à República Democrática do Congo, desta vez em uma condição diferente: não mais como alguém que precisava fugir, mas como parte de uma iniciativa dedicada a acolher e proteger outras pessoas.

No final de 2021, ele participou do início do projeto Órfãos do Congo, criado para resgatar crianças em situação de extrema vulnerabilidade em meio aos conflitos armados no país.

A missão ganhou um novo capítulo em fevereiro de 2025. Com o agravamento dos conflitos na RDC, a FSF organizou uma operação humanitária para retirar crianças e jovens de uma região de guerra e levá-los para o país vizinho: o Burundi. Maick esteve na linha de frente de todo esse processo e passou a atuar na continuidade do trabalho em outro país.

Hoje, ele coordena a casa de acolhimento, no Burundi, onde a Fraternidade Sem Fronteiras mantém para as crianças e jovens resgatados dos conflitos na República Democrática do Congo.

A trajetória estabelece uma conexão entre diferentes momentos de sua própria vida. Quem um dia atravessou uma fronteira sozinho em busca de segurança agora trabalha para que outras pessoas que também tiveram suas vidas atravessadas pela guerra encontrem acolhimento e perspectivas para recomeçar.

Ubuntu como forma de viver

Hoje casado e pai de duas meninas, Maick construiu uma nova história sem se desconectar das experiências que marcaram seu caminho.

Para ele, Ubuntu está diretamente relacionado à maneira como escolhe se relacionar e servir ao outro.

“Ubuntu é o compromisso de fazer o bem o dia inteiro, ao nosso redor. É a consciência de que somos todos seres humanos, no mesmo nível, é algo interior que nos incentiva a agir com bondade em relação ao outro, como se fosse com nós mesmos”, afirma.

Maick define ainda essa filosofia a partir de uma palavra que acompanha sua trajetória: amor.

“Ubuntu é uma forma de amar incondicionalmente, da mesma maneira como naturalmente cuidamos de nós mesmos.”

 “Nação Ubuntu – A Voz dos Silenciados”

A trajetória de Maick integra o documentário  “Nação Ubuntu – A Voz dos Silenciados”, filme que acompanha a história de quatro refugiados congoleses e o movimento que deu origem à Nação Ubuntu.

Maick é um dos personagens da produção, ao lado de Felly, Prince e Frank, os quatro líderes Ubuntu que transformaram experiências de deslocamento e refúgio em caminhos de serviço e transformação social.

“Nação Ubuntu – A Voz dos Silenciados” estreia nos cinemas no dia 12 de novembro, levando às telas uma história construída a partir do protagonismo de quem viveu o refúgio e encontrou no Ubuntu uma forma de reconstruir a própria trajetória e contribuir para a transformação de outras vidas.

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