Especialista em relações étnico-raciais, a psicóloga e pesquisadora Thayná Trindade fala sobre os desafios de construir um humanitarismo mais ético e consciente
Em um cenário global marcado por desigualdades históricas, crises humanitárias e deslocamentos forçados, discutir cuidado sem falar de raça, colonialismo e memória coletiva tornou-se insuficiente. É justamente nesse ponto que o letramento racial ganha força como ferramenta de transformação social, especialmente em organizações humanitárias que atuam diretamente com populações negras e vulnerabilizadas.
Foi a partir dessa compreensão que a Fraternidade Sem Fronteiras promoveu uma formação em letramento racial voltada a colaboradores, voluntários, lideranças e coordenadores de projetos e caravanas.
Quem conduziu os encontros foi Thayná Trindade, mestre em Políticas Públicas e Formação Humana pela UERJ e pesquisadora das relações entre saúde mental, subjetividade, ancestralidade e impactos psicossociais do racismo.
Nesta entrevista, ela reflete sobre os desafios de pensar o humanitarismo a partir de uma perspectiva racialmente consciente e explica por que compreender a história é fundamental para transformar relações no presente.
– Qual a importância de um letramento racial para a FSF?
“Antes de tudo, é importante compreender que o letramento racial não diz respeito apenas à FSF. Ele é uma necessidade social, política e humana. Falamos de uma ferramenta fundamental para enfrentar desigualdades históricas produzidas ao longo de séculos de colonialismo, escravização e desumanização de determinados povos.
O letramento racial surge justamente porque ainda vivemos os efeitos dessas estruturas. O racismo não é apenas um problema individual ou comportamental; ele organiza relações sociais, econômicas e políticas. Por isso, a formação e a conscientização são caminhos importantes para produzir transformação coletiva.
No caso da Fraternidade Sem Fronteiras, essa discussão se torna ainda mais necessária porque a organização atua diretamente com populações africanas e comunidades atravessadas por vulnerabilidades históricas profundas. Não é possível falar de desenvolvimento social sem compreender os processos que produziram essas desigualdades”.
Entre ajuda humanitária e responsabilidade histórica
Segundo Thayná, um dos principais desafios das organizações humanitárias é evitar uma atuação desconectada da realidade histórica e cultural dos territórios onde atuam.
“A pobreza, a fome e a privação de direitos não surgem de maneira aleatória. Existem processos históricos e políticos que colocaram determinados povos em condições de subalternidade”, explica.
Para ela, compreender isso transforma completamente a forma como os vínculos são construídos.
“O letramento racial ajuda as pessoas a entenderem quem são, o que seus corpos representam socialmente e quais são as realidades das populações com quem trabalham. Isso gera relações mais conscientes, respeitosas e empáticas.”
Quais os principais pontos que trouxe para a reflexão entre os participantes?
“Os principais pontos trazidos para reflexão entre os participantes envolveram a compreensão de como os processos históricos, sociais e raciais atravessam profundamente a subjetividade humana, os vínculos e a saúde mental. A palestra abordou o contexto humanitário relacionado aos impactos históricos do tráfico negreiro, da escravização e dos deslocamentos forçados de populações africanas, refletindo sobre como esses processos produziram traumas coletivos e transgeracionais que ainda reverberam no presente”.
Também foi discutida a importância da infância nesse contexto, especialmente os efeitos emocionais e psíquicos que situações de violência, ruptura de vínculos, pobreza extrema, fome, guerras e deslocamentos produzem no desenvolvimento humano.
“A reflexão buscou ampliar o olhar para as consequências subjetivas do desamparo, da perda de pertencimento e das experiências traumáticas vividas por muitas crianças e famílias em contextos de vulnerabilidade social e humanitária”.
Outro ponto importante foi a análise do contexto contemporâneo de países africanos marcados pelos impactos históricos do colonialismo, da exploração econômica e do racismo estrutural global, mostrando como essas desigualdades ainda afetam diretamente as condições de vida da população e demandam ações contínuas de organizações de apoio humanitário, inclusive brasileiras, que atuam nesses territórios.
África além dos estereótipos
Outro ponto importante da formação foi a reflexão sobre os estereótipos ainda reproduzidos sobre o continente africano.
Para Thayná, pensar o letramento racial também significa romper visões simplificadas ou estigmatizadas sobre esses territórios.
“Muitas vezes, os países africanos são vistos apenas a partir da pobreza ou da carência. Mas existe história, cultura, ancestralidade, conhecimento e potência nesses territórios.”
Ela explica que compreender os impactos contemporâneos do colonialismo e da exploração econômica global é fundamental para desenvolver uma escuta mais ética e culturalmente consciente.
“O cuidado humanitário precisa reconhecer a dignidade, os saberes e as histórias dessas populações.”
Como essa formação pode impactar as ações da FSF daqui para frente?
“Esse processo fortalece uma atuação mais consciente e também mais sustentável emocionalmente para os voluntários e colaboradores. O conhecimento não transforma apenas ações assistenciais. Ele transforma vínculos, formas de escuta e maneiras de se relacionar com o outro.”
Ao longo da entrevista, Thayná reforça que o letramento racial não deve ser entendido como um conteúdo isolado, mas como parte de um compromisso contínuo com transformação social. Mais do que transmitir informações, a proposta da formação foi provocar reflexão, consciência e responsabilidade coletiva.
“Quando ampliamos nossa capacidade de escuta e compreensão sobre o outro, também ampliamos nossa capacidade de cuidado.”
Thayná Trindade
Psicóloga Clínica, Consultora e Pesquisadora
Mestre em Políticas Públicas e Formação Humana pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPFH/UERJ). Pós-graduada em Psicologia Analítica pelo Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa (IJEP).
Atua como psicóloga clínica, pesquisadora e palestrante, com foco em relações étnico-raciais, saúde mental, subjetividade, trauma, desenvolvimento humano e impactos psicossociais do racismo. Desenvolve trabalhos voltados à interface entre clínica, formação humana, ancestralidade, desigualdades sociais e contextos humanitários.
Possui experiência em atividades de formação, consultoria e produção de conteúdo relacionados à letramento racial, saúde mental e desenvolvimento social, articulando perspectivas clínicas, históricas e culturais em suas pesquisas e atuações profissionais.
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Instagram: @thaynatrindadepsi
