Após enfrentarem deslocamento forçado, perdas e anos em um campo de refugiados, Felly, Prince, Maick e Frank tornaram-se lideranças da Fraternidade Sem Fronteiras em projetos que atendem milhares de pessoas
Por Laureane Schimidt – assessoria de imprensa FSF
Eles carregam diferentes histórias, mas compartilham a mesma origem, os mesmos desafios e o mesmo propósito. Vindos da República Democrática do Congo, Felly Zihal, Prince Kalolo, Maick Mutej e Frank Donatien conheceram a experiência do deslocamento forçado ainda jovens, deixaram para trás suas casas, suas referências e a segurança de uma vida que precisou ser reconstruída do zero.
Hoje, mais de uma década depois de deixarem o país de origem em busca de proteção, os quatro atuam como colaboradores da Fraternidade Sem Fronteiras e são conhecidos como líderes Ubuntu dispostos a transformarem a própria vivência como refugiados em uma missão de serviço ao próximo.
Quando tudo precisou recomeçar
As trajetórias individuais são diferentes, mas se encontram em um ponto comum: o campo de refugiados de Dzaleka, no Malawi. Foi ali que viveram anos marcados por limitações, incertezas e pela necessidade diária de recomeçar. Alguns chegaram sozinhos, outros acompanhados de familiares. Todos enfrentaram os impactos da violência, dos conflitos armados e da perda de direitos básicos.
“A parte mais difícil da fuga não foi apenas a fome ou o cansaço. Era não saber para onde estávamos indo nem o que aconteceria no dia seguinte. Mesmo assim, nunca perdi a esperança de que nossa história poderia mudar”, relata Prince, na época com 23 anos, hoje, com 34 anos, casado e pai de duas filhas.
As trajetórias individuais são diferentes, mas se encontram em um ponto comum: a necessidade de fugir da violência e dos conflitos que atingem diversas regiões da República Democrática do Congo.
Felly deixou o país em 2015 ao lado da mãe e das irmãs. Durante a fuga, a família acabou separada e sua mãe faleceu. Prince foi forçado a sair após testemunhar o assassinato do pai por um grupo rebelde. Maick deixou a RDC sozinho, também em 2015. Já Frank precisou abandonar seu país ainda em 2008, acompanhado da família.
Apesar das diferenças nas histórias, todos carregam marcas profundas do deslocamento forçado e da busca por segurança em um novo país.
Um campo de refugiados chamado esperança
O destino de todos foi o campo de refugiados de Dzaleka, no Malawi. Ali viveram por anos enfrentando restrições, incertezas e desafios que fazem parte da realidade de milhões de refugiados ao redor do mundo.
A vida no campo era marcada pela dependência da ajuda humanitária, pela dificuldade de acesso ao trabalho, pela limitação de deslocamento e pela constante preocupação com o futuro. Ainda assim, foi nesse ambiente que eles encontraram formas de servir suas comunidades e fortalecer redes de apoio entre refugiados e moradores locais.
Mesmo diante das adversidades, a esperança permaneceu viva. E foi justamente em Dzaleka que uma nova etapa começou a ser construída.
“O campo de refugiados pode tirar muitas coisas de uma pessoa, mas eu decidi não deixar que tirasse meu propósito. Foi ajudando outras pessoas que encontrei forças para continuar”, detalha Frank, refugiado aos 20 anos, atualmente com 38 anos, casado, pai de um menino e uma menina.
A construção da Ubuntu Nation
O encontro com a Fraternidade Sem Fronteiras aconteceu em 2018 e se tornou um marco na trajetória dos quatro líderes. Eles participaram da criação da Ubuntu Nation, primeiro projeto da organização no Malawi. O que inicialmente era apenas uma área sem estrutura transformou-se em uma comunidade voltada para educação, alimentação, acolhimento, capacitação profissional e desenvolvimento humano.
“Quando conhecemos a Fraternidade Sem Fronteiras, percebemos que nossos sonhos não precisavam terminar no campo de refugiados. Pela primeira vez, sentimos que poderíamos construir algo que transformasse a vida de muitas pessoas”, relembra Felly, que tinha 24 anos e hoje está com 35, casado e pai de dois filhos.
Todos começaram como voluntários. Participaram da construção física do projeto, da mobilização comunitária, da organização das atividades e do atendimento às famílias. Mais do que contribuir com o crescimento da iniciativa, tornaram-se protagonistas da sua própria história.
Novos caminhos, mesma missão
Com o crescimento das ações da Fraternidade Sem Fronteiras, novas oportunidades surgiram.
Felly foi enviada para Madagascar, onde atualmente coordena os departamentos de educação e recursos humanos. Prince tornou-se coordenador-geral do projeto da FSF no país, acompanhando programas que beneficiam milhares de crianças e famílias.
Maick seguiu sua missão para a República Democrática do Congo e, posteriormente, para o Burundi, onde coordena o projeto Órfãos do Congo voltado ao acolhimento e desenvolvimento de crianças órfãs resgatadas da guerra no país.
Frank permaneceu no Malawi, acompanhando o fortalecimento da Ubuntu Nation. Hoje atua na gestão educacional e operacional da escola do projeto, contribuindo para a formação de centenas de crianças.
Embora estejam em países diferentes, os quatro seguem conectados pelo mesmo propósito: servir comunidades em situação de vulnerabilidade e ampliar oportunidades para quem mais precisa.
“Eu cheguei ao Malawi sem saber o que o futuro reservava. Hoje coordeno um projeto que acolhe crianças afetadas pela guerra. Isso mostra que a dor pode ser transformada em serviço e cuidado com o próximo”,afirma Maick, que saiu da República Democrática do Congo com 24 anos. está com 35 agora, casado e pai de duas meninas.
Liderar para servir
As histórias de Felly, Prince, Maick e Frank ajudam a desconstruir uma visão limitada sobre a condição de refúgio.
Mais do que pessoas que precisaram deixar seus países, eles são profissionais, pais de família, educadores, gestores e líderes comunitários. São exemplos de que refugiados carregam conhecimentos, talentos e potencial para gerar impacto positivo onde estiverem.
Ao longo dos anos, ajudaram a implantar projetos, coordenar equipes, desenvolver ações sociais e construir soluções para milhares de crianças e famílias em diferentes regiões da África.
Eu sou porque nós somos
A filosofia Ubuntu é o elo entre as trajetórias dos quatro líderes.
Embora cada um a descreva de maneira diferente, todos compartilham a mesma compreensão de que Ubuntu não é apenas um conceito. É uma prática diária que orienta decisões, inspira ações e reforça de que ninguém prospera sozinho.
“Ubuntu é sobre compaixão, solidariedade e serviço. Ensina-nos que nossas vidas ganham significado quando ajudamos os outros. Quando aprendemos a amar os outros como irmãos e irmãs, nos aproximamos da compreensão do porquê vivemos. Tendo vivenciado sofrimento, deslocamento e dificuldades, compreendo o poder de uma mão amiga e de um coração generoso”, resume Prince.
A jornada que começou com a busca por proteção em um campo de refugiados transformou-se em uma história de liderança, reconstrução e serviço. Uma trajetória que mostra que, quando oportunidades encontram determinação, é possível transformar dor em propósito e esperança em ação.
