Após fugir da violência na República Democrática do Congo e viver sete anos como refugiado no Malawi, hoje, coordena projeto em Madagascar, que atende mais de 11 mil pessoas
Por Laureane Schimidt
Em 2015, aos 22 anos, Prince Kalolo precisou deixar a República Democrática do Congo. A violência que atingiu sua família tornou impossível permanecer no país. Seu pai foi assassinado durante um ataque de um grupo rebelde e sua mãe chegou a ser mantida em cativeiro. Diante das ameaças, Prince e familiares que sobreviveram partiram em busca de segurança.
Foram 14 dias de deslocamento, caminhando por florestas, atravessando rios e enfrentando a escassez de comida e água. Mais do que saber a distância que ainda precisavam percorrer, o que pesava era a incerteza sobre o destino.
“A parte mais dolorosa era não saber para onde estávamos indo ou o que nos aguardava. Cada dia era repleto de medo, incerteza e exaustão”, recorda.
O destino foi o campo de refugiados de Dzaleka, no Malawi, onde Prince viveria pelos sete anos seguintes.
Sete anos em Dzaleka
Recomeçar não significou deixar as dificuldades para trás. No campo de refugiados, Prince e sua família dependiam da distribuição de alimentos e conviviam com restrições de trabalho e deslocamento.
Para ele, uma das consequências mais difíceis daquela realidade era justamente a limitação para construir o próprio futuro.
“Cada ano trazia novas lutas e dificuldades. No entanto, apesar de tudo o que vivíamos, nunca perdi a esperança de que um dia nossas vidas mudariam”, conta.
Essa mudança começou a ganhar forma ainda em Dzaleka, quando Prince conheceu Clarissa Paz e, posteriormente, aproximou-se da Fraternidade Sem Fronteiras.
Quando a oportunidade encontra o potencial
Prince começou como voluntário e participou da construção da Nação Ubuntu, iniciativa criada no Malawi com o protagonismo dos próprios refugiados e que passou a desenvolver ações de educação, alimentação e geração de oportunidades.
Para ele, aquele encontro representou mais do que receber ajuda. Significou ser reconhecido por suas capacidades e ter a oportunidade de contribuir para a transformação da própria comunidade.
“Muitas pessoas ainda duvidam dos refugiados, mas a FSF nos mostrou que somos capazes, confiáveis e que podemos servir aos outros. Tivemos a oportunidade de demonstrar nossas habilidades e fazer parte de algo maior do que nós mesmos”, afirma.
A experiência como voluntário abriu novos caminhos. Mais tarde, Prince recebeu o convite para atuar em Madagascar, no Projeto Ação Madagascar. A decisão de aceitar estava ligada a um propósito que já havia se fortalecido durante sua própria trajetória.
“Eu sempre senti um forte chamado para servir. Sabia que meu propósito não era viver apenas para mim, mas ajudar a transformar a vida daqueles que precisam.”
De Dzaleka à liderança em Madagascar
Atualmente, Prince é coordenador-geral do projeto da Fraternidade Sem Fronteiras em Madagascar. Casado e pai de três filhos, ele está à frente de ações humanitárias que atendem mais de 11 mil crianças.
O trabalho dele envolve a coordenação de iniciativas de nutrição, educação, saúde, desenvolvimento comunitário e assistência social. Ao lado da equipe local, acompanha ações que buscam garantir alimentação, acesso à escola, cuidados de saúde e novas oportunidades às comunidades atendidas.
A posição que ocupa hoje estabelece um contraste com os anos em que viveu sem saber quais oportunidades teria pela frente. A experiência de quem precisou de proteção tornou-se parte da maneira como Prince compreende o trabalho humanitário e a importância de reconhecer as potencialidades de cada pessoa.
“Ver vidas transformadas todos os dias é um dos maiores privilégios do meu trabalho”, resume.
“Eu sou porque nós somos”
Para Prince, Ubuntu não está separado da própria história. A filosofia africana sintetizada pela expressão “eu sou porque nós somos” representa a compreensão de que a humanidade de cada pessoa está conectada à dos outros.
“Ubuntu é compaixão, solidariedade e serviço. Ensina que nossas vidas ganham significado quando ajudamos os outros. Tendo vivenciado sofrimento, deslocamento e dificuldades, compreendo o poder de uma mão amiga e de um coração generoso”, afirma.
Mais do que uma filosofia, ele define Ubuntu como um modo de vida.
“Ninguém deve caminhar sozinho. Juntos, podemos restaurar a dignidade, a esperança e criar oportunidades para aqueles que mais precisam.”
“Nação Ubuntu – A Voz dos Silenciados”
A trajetória de Prince é uma das histórias retratadas no documentário “Nação Ubuntu – A Voz dos Silenciados”, filme que acompanha quatro refugiados congoleses e o movimento que deu origem à Nação Ubuntu.
Ao lado de Maick, Felly e Frank, Prince é um dos líderes Ubuntu que protagonizam a produção, levando para as telas uma história marcada pelo deslocamento, pelo recomeço e, sobretudo, pelo protagonismo de refugiados na transformação de suas próprias comunidades.
“Nação Ubuntu – A Voz dos Silenciados” estreia nos cinemas no dia 12 de novembro, levando às telas uma história construída a partir do protagonismo de quem viveu o refúgio e encontrou no Ubuntu uma forma de reconstruir a própria trajetória e contribuir para a transformação de outras vidas.
