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Roraima pede Socorro

Famílias se abrigam como podem. Cozinham ao ar livre, ocupam a rodoviária, praças, canteiros. Pelo semáforo, usam placas escritas à mão, com o pedido de emprego. Só com a roupa do corpo, deixam a Venezuela e caminham até cinco dias para atravessar a fronteira com o Brasil, em busca de comida e chance de vida. Na bagagem, o peso é o da luta pela sobrevivência. Nas ruas de Pacaraima – a primeira cidade no caminho dos imigrantes – e na capital, Boa Vista, vê-se homens, mulheres e crianças necessitados de tudo.

Incentivado por apoiadores, padrinhos e divulgadores da causa, que sugeriram o acolhimento aos irmãos venezuelanos, o fundador e presidente da Fraternidade sem Fronteiras, Wagner Moura, visitou Roraima no início do mês de outubro e viu de perto a realidade noticiada.

“Voltando de Pacaraima à Boa Vista, encontrei dois jovens caminhando com mochila nas costas. Dei carona e viemos conversando. O dinheiro deles tinha acabado ainda dentro da Venezuela e eles chegaram ali através de caronas. Compraram um pão bengala e essa era a única refeição. Eles iriam caminhar, ao todo, cinco dias. Não sei como, sem comer”, conta Wagner.

Os dois jovens trabalhavam na colheita de tangerinas e limões, na Venezuela. Isso dava a eles o equivalente a R$ 1,00 por dia. “O quilo da fruta custava R$ 4,00, ou seja, eles precisariam trabalhar quatro dias para conseguir comprar”, compara Wagner.

Um dos rapazes tem a esperança de conseguir emprego e dinheiro para sustentar a família que ficou. “Ele me disse ter um casal de filhos, uma sendo bebê de 3 meses, e que estava vindo para alimentar a família que deixou. Dizia ‘estou aqui em busca de algo, de esperança’”, relata Wagner.

É desafiador, mas possível. Instituições trabalham como podem. “Visitamos abrigos que estão bem no início do trabalho. O que estão acolhendo é insuficiente, além de não conseguir acolher como querem. E as notícias são de que quase 400 venezuelanos cruzam a fronteira por dia”, detalha Wagner. Quem tem dinheiro vai para outras regiões, quem não tem fica na primeira parada, a cidade de Pacaraima.

A Fraternidade sem Fronteiras lança a campanha Brasil, um coração que acolhe e dá início a uma mobilização fraterna para construir um centro de acolhimento FSF, com dormitório, cozinha, refeitório e banheiros. Também idealiza alugar casas para instalar as famílias e, inicialmente, dar alimentação e custear as despesas básicas.

Voluntários vão visitar famílias nas casas e serão a ponte para a retirada de carteira de trabalho, matrícula na escola, atendimento médico e outras necessidades. Com emprego certo, as famílias passam a custear as primeiras contas como água e luz, até chegar ao aluguel, tornando-se independentes e fazendo frente, eles próprios, de todos os gastos da família. Assim, à medida que já puderem se sustentar, outros venezuelanos poderão ser acolhidos.

A Fraternidade sem Fronteiras também vai ajudar instituições que já se esforçam, com dificuldades, para amparar os Venezuelanos. Apoiará, por exemplo, os trabalhos de assistência iniciados pelo Padre Jesus, em Pacaraima, e o da Irmã Clara, que por meio de outra ONG, chamada Fraternidade Internacional oferece, com muita dificuldade e de forma bastante improvisada, assistência a 600 famílias, abrigadas em ginásio municipal. A integração dos trabalhos permitirá o atendimento às famílias indígenas e não indígenas.

Crise humanitária – Os venezuelanos sofrem a mais grave crise política, econômica e humanitária do País já viu. A falta de emprego e oportunidade de renda levou 52 mil cidadãos a pedir refúgio em outros países, segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. Pela proximidade fronteiriça, o Brasil concentra o segundo maior número de solicitações. A inflação desabastece mercados e impede que os moradores consigam comprar alimento. Há quem tenha terra, mas não consiga sequer sementes para plantar. Para uma população que não tem acesso à comida, remédios e saúde, se alimentar todos os dias virou privilégio.

A falta de emprego e oportunidade de renda levou 52 mil cidadãos a pedir refúgio em outros países, segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. Pela proximidade fronteiriça, o Brasil concentra o segundo maior número de solicitações. A Polícia Federal registra que 30 mil venezuelanos cruzaram a fronteira para o Brasil, entrando por Roraima, de 2016 até agora.

Perfil dos imigrantes – Segundo dados da Polícia Federal, mais de 58% dos imigrantes são do sexo masculino e jovens entre 22 e 25 anos. A maioria dos estrangeiros que chegam a Roraima são estudantes (17,93%), seguidos por engenheiros (6,21%), médicos (4,83%) e economistas (7,83%). No primeiro semestre de 2017, o Ministério do Trabalho no estado de Roraima entregou quase 3 mil carteiras a cidadãos venezuelanos.

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