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“Eu não dei tudo o que eu tinha, mas eles me deram tudo o que tinham”

Sobre o amor infinito e uma gratidão que não tem medida. Caravaneira, madrinha e mãe, a médica cardiologista Amanda Pereira viveu, aos 38 anos, a experiência mais transformadora de sua vida. Tirou do bolso o pouco que tinha numa visita às casas dos afilhados e, em troca, recebeu o que de mais valioso as famílias possuíam: um galo e uma galinha.

Mineira de sotaque acolhedor, Amanda visitava as aldeias do Norte de Moçambique, quando se encontrou com a mãe de dois, dos quatro afilhados. Na ocasião, ela pediu ajuda específica para a casa de sapê.

Numa região onde raramente chove, quando a água aparece traz alívio, mas também percalços. “Dentro de casa o telhado era de sapê e ela então me perguntou se eu podia ajudá-la”, recorda a médica.

A melhor forma de fazer algo era conhecer de perto a realidade descrita, que ultrapassava o vazamento do telhado, projetando um cenário de fome, miséria e ainda assim, esperança. Os seis quilômetros que a mãe fazia com as crianças à pé, de casa até o centro de acolhimento, foram feitos por Amanda. “São seis para ir e seis para voltar. E isso só para comer um prato de comida”, pontua a madrinha.

Na casa, a caravaneira recebeu o convite para entrar. Nunca se imaginaria que ali existiriam 11 pessoas e quatro gatos dividindo um mesmo teto tão pobre e pequeno. No varal, ao invés de roupas, a família deixava secar o couro de ratazana, que era o que lhes servia de comida. “Eu fiquei muito sensibilizada com essa situação e tudo o que eu tinha de dinheiro, dei para ela. Antes que eu deixasse a casa, um dos meus afilhados sumiu. Na despedida, ele voltou com uma galinha. Foi pegar aquilo que era a maior riqueza da família”, narra Amanda.

O presente foi recebido por lágrimas. “Eu não dei tudo o que eu tinha, mas eles me deram tudo o que tinham”. E mal sabia ela que era apenas o primeiro de uma emoção dupla. Mais adiante, na casa dos outros dois afilhados, Amanda se viu já sem dinheiro para ajudar. Mas, a fraternidade não anda só. Na companhia da cunhada, a médica pediu à ela uma quantia para que pudesse doar. “E eles me deram um galo. Eu fui embora com um galo e uma galinha”.

Um pouco à frente, a certeza de que nada que se passa na África é em vão. Amanda participava do cadastro para o acolhimento de novas famílias e numa casa, ao fazer a entrevista para delimitar o grau de vulnerabilidade, se deparou com uma conta muito triste.

“Conversando, eles falaram que há 15 ou 18 dias estavam sem comida. Lá, nem sempre eles têm essa conta de cabeça. Quando a gente pergunta, precisam pensar”, descreve. A pausa para o cérebro contabilizar a fome tem som de angústia.

“Ali eu dei o galo e a galinha. Foi um presente que recebi, foi tudo para mim.”, sente.

A experiência na África influenciou também o dia a dia da médica com os pacientes. “Eu sou cardiologista e sempre acessava as pessoas pelas doenças. Depois deste acontecimento, passei a acessá-las pelo coração. Foi quando eu percebi que assim a gente é mais tocado profundamente”.

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