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Mãe e filho venezuelanos se reencontram, no Brasil, com ajuda da Fraternidade sem Fronteiras

Por Taemã Oliveira, assessoria de imprensa FSF/Boa Vista – Roraima

Alícia Victoria e o filho Ivan

Mães e filhos nunca deveriam ser separados. É muita troca de amor direta! Momentos que às vezes são interrompidos. No caso dessa história, a convivência entre mãe e filho foi comprometida por uma crise econômica, pela falta de emprego, pela fome e, principalmente, por uma fronteira. 

Alícia Victoria Vargas Lopes, de 31 anos, venezuelana da cidade de Barcelona, Anzoátegui, no litoral, ao ser avisada pelos patrões de que perderia o emprego e sem dinheiro suficiente para sustentar os dois filhos, decidiu entrar em contato com um tio que morava em São Paulo, no Brasil. “Mas não foi nada fácil, porque tive que deixar meu filho na Venezuela e trazer somente a minha filha mais nova. Só tinha dinheiro para trazer um dos dois”, disse Victoria. 

Com a ajuda do tio e dos patrões, Victoria chegou na capital de São Paulo, em 2019, com a pequena Franlys Saéz, de 6 anos, a espera do esposo, Javier Curbata, de 33 anos, que estava na Colômbia, mas que logo se juntou a elas no Brasil. Mas a família não estava completa e com o passar do tempo, a saudade e a preocupação com o Ivan só aumentavam. 

“Minha irmã, com quem eu deixei ele, faleceu. Ele era apegado com essa minha irmã, chamava ela de mãe. E com a morte dela, ficou muito difícil pra ele, porque ele ficou sozinho”, continuou contando Victoria. “Ficou também muito difícil para mim estar no Brasil e ver meu filho sozinho na Venezuela”, disse a mãe. 

Mas Victoria, quando chegou a Brasil, havia conhecido o Fraternidade na Rua, polo de São Paulo, um projeto da Organização humanitária e Não-Governamental Fraternidade sem Fronteiras, a FSF, que atua no acolhimento de pessoas em situação de rua. Foi a quem ela recorreu para trazer o filho. Mas como o Fraternidade na Rua, em São Paulo, com recursos de doações, faria isso estando tão distante!? A parceria com o Projeto Brasil, um coração que acolhe, que atua em Roraima acolhendo refugiados e migrantes venezuelanos, seria perfeita. E assim foi. 

Em agosto de 2021, os dois projetos se uniram, em nome da fraternidade, da união, do amor, de um vínculo sem fronteiras, para uma grande missão que só tinha data para começar. Proporcionar o reencontro de uma mãe e com filho, que foram privados do convívio pelo que acreditamos que não deveria existir. Melhor, por algo que não acreditamos que exista: uma fronteira. A fronteira entre Brasil e Venezuela. 

O Fraternidade na Rua, de São Paulo, fez uma campanha, conseguiu arrecadar recursos para mandar a mãe para o estado de Roraima. Victoria desembarcou em Boa Vista, no dia 13 de agosto, onde passou quase um mês hospedada na casa de uma amiga, na periferia da capital roraimense, na espera do momento ideal para Ivan sair da cidade deles e atravessar a fronteira. No dia 4 de setembro, após muitas negociações, arrecadação de mais verbas para enviar ao país vizinho, onde tudo agora é comercializado em dólar, o menino Ivan Alexander Jove Vargas, de 14 anos, conseguiu chegar, na companhia de um primo, até Santa Helena, cidade venezuelana fronteiriça com o Brasil. 

No mesmo dia, Victoria foi de transporte intermunicipal para Pacaraima, fronteira brasileira com Santa Helena, para esperar o filho atravessar a fronteira. Mesmo debaixo de muita chuva, Ivan chegou ao Brasil e se reencontrou com a mãe no meio da rua. “Choveu muito e fiquei com muito medo de ter que voltar. Mas deu tudo certo. Agora estou feliz de estar com a minha mãe, me sinto seguro agora”, disse o pequeno Ivan. 

Mãe e filho passaram mais 3 meses em Pacaraima, onde ficaram acolhidos na sede de uma igreja parceira da FSF. Eles ficaram todo esse tempo tentando regularizar a documentação. O tempo longe da filha menor já era muito longo e então, mais uma vez, com a ajuda de doações, Victoria e Ivan conseguiram seguir viagem. No dia 15 de dezembro, os dois chegaram em Boa Vista e já seguiram viagem de avião para São Paulo.

“Toda vez eu ligava para o meu filho e perguntava o que ele tinha comido e ele dizia que o mesmo de sempre: pão com café. Isso me fez pensar que eu precisava pedir ajuda e enfrentar qualquer situação para tirá-lo da Venezuela. Em São Paulo, o Fraternidade na Rua disse que ajudaria e eles fizeram várias campanhas para nos ajudar. Sou muito grata à Fraternidade sem Fronteiras por hoje eu estar novamente com meu filho ao meu lado”, disse Victoria emocionada ao lado de Ivan. 

Do lado de cá, de quem ajudou a promover esse reencontro, a gratidão é a mesma. “Todos foram essenciais nesse processo e só o que podemos dizer é que somos muito gratos por todo o aprendizado e por esse reencontro”, disse a voluntária do Fraternidade na Rua de São Paulo, Francielle Benevides.

Para o Projeto Brasil, um coração que acolhe foi uma aventura inovadora de logística, que deu super certo e enchem o coração de esperança e de vontade de que todas as famílias separadas pela pobreza e pela fome, consigam se reencontrar. “Ficamos extremamente felizes com o contato do Fraternidade na Rua, de São Paulo, e de poder ajudar essa mãe com o filho em Roraima. Seguimos as diretrizes internacionais de acolhimento a refugiados e migrantes, tratamos todos igualmente e sabemos que um fluxo deve ser seguido, afinal, muitas famílias estão na mesma situação. Mas podemos ajudar com orientações, acolhimento, alimentação e transporte, e foi o que fizemos. Somos gratos a todos que ajudaram”, finalizou Arthur Dias, coordenador do Projeto em Roraima. 

Hoje, Victoria e Javier estão desempregados. A família vive de aluguel e segue sendo acompanhada de perto pelos voluntários da FSF de São Paulo. Mas o principal é que eles têm amor e união. E sabe aquele aperto no peito de saudade? Esse eles não sentem mais.

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