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Semeando Ubuntu no mundo: a história da caravaneira Giovanna Gadia

Por: Alline Gois

A fraternidade que nos une em uma só família: a humana. Reconhecendo-nos como irmãos, prontos para estender a mão e com os braços e corações abertos para acolher, dar e receber amor! Vivenciar e praticar Ubuntu. 

Esse foi o aprendizado e a transformação mais profunda na vida de Giovanna Cunha Mello Gadia, professora universitária de direito, que embarcou junto com a Fraternidade sem Fronteiras num encontro de amor ao próximo.  

A vontade de ajudar e sacudir o mundo com o bem levou Giovanna e Rodolfo, seu esposo, à FSF.

Logo embarcaram em uma viagem de encontro com muitas mãozinhas cheias de amor, que lhes

Primeira Caravana de Giovanna

ensinaram a simplicidade do amor. Em fevereiro de 2018, eles embarcaram na caravana para Moçambique e, desde então, o amor ao próximo os moveu para muitas outras caravanas: Boa Vista, no projeto “Brasil, um coração que acolhe”, e para o Sertão da Bahia, projeto “Retratos de Esperança”.  

 

Conheça essa história linda de amor fraterno na entrevista que fizemos com a nossa caravaneira Giovana. 

FSF – Giovanna,   por que surgiu a vontade de ser caravaneira?

Giovanna – A vontade de ser caravaneiro vem desde muito tempo, tanto para mim quanto para o Rodolfo. A gente se conheceu dentro de projetos sociais, dentro de uma cidade espírita, e acho que fazia parte do contexto da gente amadurecer e querer continuar trabalhando. Só que a gente não tinha a mínima noção de isso transformaria a nossa vida a partir do momento que a gente foi, a partir da primeira caravana, que foi em fevereiro de 2018. E nunca mais a vida foi igual. A gente nunca mais conseguiu se desconectar disso, desse movimento. Moçambique, que foi o primeiro lugar que a gente conheceu, do trabalho da Fraternidade sem Fronteiras. 

E cada vez mais envolvido, cada vez mais com o coração entregue, porque a experiência da caravana é uma parte do trabalho. Acho que o mais importante é quem você vai se tornando através desse processo, quem você vai se deixando tornar através de todo amor que envolve esse processo.

 

FSF – Quando chegou a Moçambique, com qual realidade você se deparou e o que sentiu ao chegar a uma sociedade tão diferente da nossa?  Poderia nos contar  da sua experiência? 

Giovanna – Moçambique foi a nossa porta de entrada na Fraternidade sem Fronteiras, a primeira vez que fomos foi em fevereiro de 2018, depois março de 2019 e fevereiro de 2020 – um pouquinho antes da pandemia que assolar o Brasil -, nós conseguimos fazer a caravana, sempre na caravana de saúde.  Eu não sou da área da saúde, mas o Rodolfo é. Então, eu sempre vou para segurar mãozinhas e sempre para fazer o que for necessário, porque é um trabalho maravilhoso. Às vezes a gente fala: nossa, o que um profissional de outra área vai fazer numa caravana de saúde? Tudo! Você vai fazer tudo. Tudo o que tiver para fazer, trabalho não falta. Então, você vai trabalhar na triagem, vai trabalhar na doação de roupas, vai aprender a escovar os dentinhos das crianças, a limpar uma ferida, vai fazer um copo de leite e vai entregar, vai conversar, vai brincar, vai fazer carinho. São dez dias de caravana e a gente sempre volta transformado. Não existe uma caravana igual a outra, não existe jeito de mencionar ou de dimensionar qual caravana é mais importante, a mais bonita, aquela que ficou no seu coração. Cada vez que a gente vai, forma uma nova família com os caravaneiros que vão, conhece mais pessoas lá e se vincula a essas pessoas de uma maneira extremamente afetiva e com o coração muito aberto a esse amor.

Você chega lá e não é o médico, não é o doutor, o super profissional, você é um ser humano e as pessoas te abraçam pela sua humanidade. Então, essa visão que a gente vai numa caravana para ajudar, para fazer um trabalho voluntário, assistencial, ela se transforma muito quando a gente se depara com a realidade, [onde] a gente recebe muito mais do que dá. Toda vez que eu vou para uma caravana eu recebo muito amor, muito acolhimento, muita generosidade, muita gratidão. E eu não sou capaz de dar tanto, acho que nem tenho tanto para dar, eu recebo sempre muito mais. É maravilhoso, e isso também nos vincula, nos dá vontade de ir sempre mais, porque toda vez que a gente vai, a gente aprende.

FSF – Tem alguma situação, história que te marcou durante esse período que esteve em caravana? 

Giovanna – Cada caravana tem situações muito específicas. Tem situações que ficam, e acho que ficam para a nossa vida. Na caravana de 2019, a gente estava andando na região de barragem, que é um dos centros de acolhimento da Fraternidade sem Fronteiras, e devia ser umas 16h, e o líder comunitários nos levou para conhecer uma família que estava de luto. Eram quatro crianças, sendo que a mais nova era um bebezinho de 30 dias. A a mãe tinha falecido, de HIV, no dia anterior. Elas também eram órfãos de pai, que tinha morrido pelo mesmo motivo; e estavam sendo cuidadas pela avó, que vivia numa casa de pouquíssimas condições.Naquele momento, a comunidade estava visitando a avó. Eles estavam sentados numa esteira, do lado de fora do terreiro, em silêncio – porque é assim que eles vivem o luto.

[Uma das preocupações era com] o bebezinho que mamava na mãe. Desde que [ela faleceu], ele não tinha se alimentado. A gente ficou muito preocupado com aquelas crianças, o que elas iriam comer A gente já não tinha mais nada, porque tínhamos passado por um dia inteiro de atendimentos. Então, vimos se ali perto tinha um vilarejo e fomos comprar leite, bolacha, biscoito, o que tinha a mão. Então nós fomos de ônibus e voltamos. Quando voltamos, já estava anoitecendo. Então fizemos a mamadeira, demos o leite para o bebezinho, e tivemos que acender as lanternas dos celulares para poder iluminar todo o lugar. Demos a bolacha e os biscoitos para os irmãozinhos que eram uma escadinha, o mais velho devia ter uns quatro ou cinco anos. E, quando acabou aquele movimento, nós nos organizamos para ir embora, já estava bem de noite. Apagamos as luzes dos celulares e fomos saindo. Quando eu me virei e olhei para trás, era um breu, uma escuridão, [e] eu sabia que aquelas pessoas estavam todas sentadas [lá]. Eu não conseguia ver ninguém, estava tão escuro, e aí me deu um estalo e fiquei pensando: “Por que que a gente vai para a África?”.  A gente vai para a África para ver e para tornar essas pessoas visíveis.

Eu estava no escuro, mas elas estavam ali, eu sabia que elas estavam ali, porque eu também estava ali. Eu tive uma partilha muito emocional com elas. Então, a minha obrigação, a minha responsabilidade era voltar para o meu universo, para a minha casa, para a minha zona de conforto e dizer para todo mundo que essas pessoas existem. Isso me transformou profundamente. A gente não vai para a África para fazer passeio, para fazer um assistencialismo sem propósito, sem fundamento, a gente vai para estabelecer conexões muito amorosas. E a responsabilidade que a gente tem com essas pessoas é fazê-las existir para outras tantas pessoas que tem aqui e são nossos amigos, familiares, e que ainda não tiveram a oportunidade de vivenciar essa mesma experiência. 

FSF – Como você vê o trabalho humanitário desenvolvido pela FSF e a importância de todos nós estarmos envolvidos na ajuda ao próximo?

Giovanna – O trabalho [humanitário] que a Fraternidade sem Fronteiras desenvolve é transformador em muitos sentidos. Porque ele não é um trabalho da gente ajudar o próximo simplesmente, ele é um trabalho de transformação mútua. Ele é um trabalho que a gente se transforma na medida em que se envolve, na medida em que tenta ajudar, tenta melhorar a vida do outro; a nossa vida vai sendo melhorada, as nossas feridas vão sendo tratadas nesse processo, porque a gente vê o quanto qualquer gesto nosso é importante. Qualquer ação nossa faz a diferença, qualquer palavra, qualquer contribuição pode, realmente, transformar para melhor o universo de outra pessoa. Então, isso também nos transforma, nos encoraja, nos alegra, fortalece e faz com que tenhamos outros parâmetros de vida. A coisa mais bonita que pode acontecer nesse movimento, eu acredito que seja as conexões que a gente estabelece. Essas conexões que me fazem saber os nomes, as histórias, e que me fazem responsável. Porque quando você tem um amigo, quando você tem alguém que você ama, você é responsável por ela, você se importa. Aquela pessoa é importante para a sua vida. Ver aquela pessoa feliz, ver aquela pessoa crescer é importante para você, e quando ela sofre, você sofre junto. Isso é muito importante no trabalho da Fraternidade sem Fronteiras, a gente fica angustiado não porque quer resolver o problema do mundo, mas porque a gente sabe que, se cada um de nós fazer um pouquinho, o problema do mundo pode ser resolvido com muito mais efetividade. Quando a gente está unido, a gente é uma potência!

 

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