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Música e arte: pontes que conectam corações

Garantir que crianças e jovens tenham uma educação de qualidade e boas oportunidades na vida é um dos objetivos da Fraternidade sem Fronteiras (FSF), pois, todos os envolvidos na causa sabem o quanto isso tem o poder de transformar tantas realidades. Apostando na arte como forma de educar, a Orquestra Jovem Emmanuel, coordenada pelo maestro Orion Cruz, ensina música e instrumentos clássicos para meninas e meninos da periferia de Campo Grande (MS). 

Recentemente, a Orquestra ganhou dois grandes talentos: os irmãos venezuelanos Leoner Abraham de Parra, de 17 anos, e Ángel David de Parra, de 13, dois músicos que tocam cuatro, típico instrumento venezuelano, e se espelham um no outro para e irem cada vez mais longe. 

Apresentação orquestrada pelo maestro Gustavo Dudamel

Leoner, que além de cuatro, toca mais 13 instrumentos, conta que seu interesse pela música começou porque seu avô materno cantava canções gardelianas e de Vicente Fernandez. Ele sempre se perguntava como os sons de instrumentos tocados ao vivo saíam igual às gravações e, pouco tempo depois, quando tinha nove anos, teve a oportunidade de estudar música no projeto Alma Llanera, no Museu Casa Natal Ezequiel Zamora Correa, em Cúa, capital do estado de Urnadeta.

“Quando estava começando o ano escolar, minha mãe estava falando com uma amiga que disse que tinha um projeto de música na Casa Natal Ezequiel Zamora e fomos saber como era”, conta. E continua: “passou uma semana e a secretária nos contou tudo que íamos fazer para que eu começasse na semana seguinte e me deram três opções: piano, violão e cuatro. Eu escolhi o cuatro”.

A iniciativa de Leoner incentivou seu irmão, Abraham David, a também tocar o mesmo instrumento, contudo, nesse tempo o mais novo ainda não tinha idade para começar as aulas. Então, tendo paciência e determinação, o pequeno esperou sua vez chegar e, assim que iniciou o curso, já se destacou, sendo que dentro de um ano embarcou em uma turnê por toda a Venezuela. A viagem foi feita pela Orquestra Infantil Nacional e pelo diretor Gustavo Dudamel. 

“Nós éramos apenas três meninos, não estava o baixista, mas era maraquero e dois cuatristas. Viajamos por toda Venezuela e chegou um dia em que o professor disse ‘Agora para a Itália’”, recorda Ángel David. Na Itália foram 15 dias de apresentações, que para o músico foram os melhores de sua vida.

Contudo, a Orquestra, segundo Leoner, além da música, também o ensina valores que o farão uma pessoa melhor no futuro. Uma dessas lições veio quando ele assistiu o sucesso de seu irmão mais novo e precisou usar seu sentimento de contrariedade para focar nos estudos e alcançar o mesmo patamar.

“Quando Ángel chegou em casa da última volta, disseram à minha mãe: ‘Seu filho vai à Itália’! Eu fiquei bravo, mas quando o vi to

Ángel David embarcando para turnê na Itália

car calei a boca porque vi o resultado de seu esforço, de seu sangue, suor e lágrima. Disse a mim mesmo ‘se ele pode, eu também’, confessa o mais velho.

E, tomado por essa determinação, Leoner começou a se empenhar cada vez mais, estudando o cuatro e, quando seu irmão, junto com os outros músicos e o professor, voltaram da turnê na Itália todos podiam notar sua evolução. E mais uma vez, a música lhe ensinou um valor.

“O professor Ángel Abreu nos dizia ‘se está com humildade, as portas se abrirão’, mas eu nem dava importância. Um dia suspirei durante a aula e ele perguntou: ‘Leoner, está com preguiça’? E disse: ‘um pouco’. Então ele me disse: ‘Vamos fazer algo: se você tocar o tema que estou dando, continua na aula, mas se não, te suspendo por uma semana’ e eu todo nervoso, toquei. Quando faltava pouco para ganhar a aposta, errei. Chorei e o professor me deu um conselho: ‘Nunca confie em seu instinto, mas confie em sua memória. Nos vemos na semana que vem’”, relembra.

Entre viagens, apresentações e muitas lições aprendidas, se passaram três anos e a Orquestra cresceu e se dividiu em três partes: iniciantes, intermediários e avançados, com 200 membros cada um. Houve muitos concertos, inclusive, tocaram na maior orquestra do mundo, que reuniu um milhão de meninos e meninas, em homenagem ao criador do sistema de orquestra na Venezuela, Jose Antonio Abreu.

Entretanto, a situação econômica do país começou a ficar ruim: entre 2014 e 2016 o preço de tudo aumentou e as pessoas começaram a ficar desempregadas. Dessa forma, a Orquestra começou a diminuir até que acabou, pois, 80% dos alunos estavam fora do país.

Por um tempo, tentaram retomar as atividades da orquestra; primeiro com um grupo de oito cuatristas solistas chamado Emsamble Cuatro, que durou quatro anos. Depois, reiniciaram o Alma Llamera.

“Até este ano era aluno, em dezembro de 2018 foi meu primeiro concerto como diretor e foi emocionante. Até junho, estava na orquestra, foram muitas experiências e nunca os esqueço”, declara Leoner.

Porém, mesmo com a retomada da Orquestra, a situação econômica afetou cada vez mais a vida dos meninos e para

Ángel e Leoner na apresentação de Final de Ano do Espaço Chico Xavier

tentar melhorar a situação, a família mudou-se para o Brasil com a ajuda da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Chegaram no dia 16 de agosto e passaram três meses procurando um projeto de música, quando conheceram a Orquestra Jovem Emmanuel.

“Quando chegamos, nos receberam bem, meu irmão vai estudar viola e eu violino, e um dia o professor Orión nos disse que tínhamos um concerto. Eu fiquei impactado e dizia: ‘vamos ter nosso primeiro concerto no Brasil’. Leoner ainda conta que ficou impressionado quando os anunciaram como Orquestra Filarmônica, pois, para eles era algo muito grande.

Aos poucos, os irmãos estão se adaptando à cultura local e às diferenças que existem no Brasil. Para o próximo ano, os planos são continuar estudando no ensino regular e também música na Orquestra.

De acordo com o maestro Orion Cruz, que coordenada o projeto Orquestra Filarmônica Jovem Emmanuel, é de suma importância a integração de pessoas vindas de outras nacionalidades, pois, possibilita uma vasta troca de experiência onde todos saem aprendendo. 

“É fundamental abraçar o ser humano seja ele de onde for, e pela convivência despertar o lado da sensibilidade do ser humano. O que importa é estar junto”, conclui o maestro. 

Orion também frisa que a participação dos irmãos na formação orquestral abre possibilidades melhores no futuro, uma vez que formados poderão participar de concursos, ser contratados para compor filarmônicas ou tocarem como músicos profissionais em eventos.   

Pensando no futuro, nenhum dos dois tem intenções de abandonar a música, mas, sim, conciliar a carreira com outras atividades, pois, sonham têm sonhos grandes e muita força de vontade para alcançar seus objetivos. 

“Meu projeto para o futuro é fortalecer minha paixão pela música e demonstrar que posso chegar a ser igual Gustavo Dudamel e muito mais. Também poder ter a oportunidade de ajudar as pessoas que necessitam e demonstrar que os venezuelanos podem ser melhores”, declara Leoner.

Mesmo com pouca idade, Ángel também traça caminhos grandiosos e pretende concretizar seus sonhos por meio dos estudos acadêmicos.“Seguir com meus estudos e passar na universidade, estudar uma carreira de administrador de empresa, seguir com a música e ser futebolista”, conta. 

Apesar de todas as barreiras encontradas pelo caminho, os dois seguem firmes encontrando na arte um jeito de olhar a vida com olhos cheios de alegrias e esperança em um futuro melhor, não apenas para eles, mas como para todos que os cercam. 

 

Quer fazer parte desta corrente de fraternidade e ajudar a Orquestra Filarmônica Jovem Emmanuel a continuar transformando vidas? Conheça mais sobre esse lindo projeto e apadrinhe esta causa!

 

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